Para entendermos por que O declínio do homem público já se tornou uma
espécie de clássico da sociologia contemporânea, basta olharmos à nossa volta.
Basta ver que um país com o Brasil tem, por exemplo, muito mais poetas do que
leitores de poesia. Do advogado ao médico, à dona-de-casa e até ao cineasta,
passando, é claro, pela atriz, todos escrevem - e empurram-nos - seus poeminhas.
Por que será que é mais fácil escrever poesia do que ler poesia, fazer arte do
que ver arte - paradoxo que só pode implicar rebaixamento de qualidade? É que no
mundo do "eu me amo", do narcisismo desvairado, a privatização da existência
assumiu proporções tais que o eu constantemente invade o já tão depauperado
espaço do outro. Ser outro hoje em dia é duro, nesse bulevar de vitrines do
ego.Muito justamente, Richard Sennett se cansou dessa mania de jogarem o
coração - sangrando ou não - sobre a mesa. Para ele, os principais males da
sociedade, do narcisismo clínico à apatia política, resultam no declínio da vida
pública, uma vez que as pessoas só podem ser sociabilizáveis quando possuem
algum resguardo uma das outras. Ou seja, para que haja interação eficaz entre
elas, são imprescindíveis algumas formas ritualísticas de comportamento, tais
como as que havia no século XVIII, onde, efetivamente, existia um equilíbrio
entre a geografia pública e privada.Cobrindo mais de duzentos anos de
história cultural, política e social, e englobando a moda, os escritos de
Diderot e Balzac, os estilos de Liszt e Paganini (e as respostas de suas
audiências), o comportamento das massas revolucionárias, o caso Dreyfus e a
carreira de Richard Nixon, O declínio do homem público concentra-se
precisamente as razões pelas quais, a partir de um dado momento, aquele
equilíbrio - no fim das contas tão necessário à nossa sobrevivência psíquica -
deixou de existir.Richard Sennett, "O declínio do homem público"
(orelhas)Companhia das Letra, 1989
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