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Cronicas de uma menina feliz
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  on /2011/06/colcha-de-retalhos.html 27 Jul
Colcha de retalhos



A gente vai completando a nossa vida aos
pedacinhos, assim como é fazer uma colcha de retalhos. Juntando pedacinho aqui,
pedacinho ali. Remendando. Um a um. E é um trabalho manual, braçal. Descomunal,
até. Dá um trabalho danado. E às vezes, a gente tem que desfazer, ponto por
ponto. A gente vai reclamando, mas vai fazendo, porque é algo que tem que ser
feito, se a gente quer uma colcha bem feitinha, os erros tem que ser
consertados... Queria ter o poder de voltar no tempo. Talvez eu notasse que nem
tudo foi tão ruim quanto eu pensei. E esse voltar iria mostrar que tudo valeu à
pena. Eu iria retornar ao ponto na colcha em que o alinhavo daria lugar a
costura definitiva. Pespontada. E sem precisar voltar pra corrigir.
Quando eu penso em costura, a imagem mais
nítida e mais presente na minha alma é a minha vó. Eu sei, eu sei, sei que me
repito. Mas sabe? Faz tempo que não sou mais uma menininha feliz. Quero dizer,
feliz eu ainda sou, mas o tempo passou pra mim, não dizem que velho repete as
coisas?? Pois é... 
Minha vó. Não sei até hoje como pode caber amor
assim dentro da gente. Como as pessoas que passam pela nossas vidas podem deixar
tamanha marca. Marca que nunca sai, faca o que fizer. Indelével, pra
sempre.
A minha vida começa, quando eu lembro da minha
avó. É como se ela fosse o ponto de partida. A minha colcha de retalhos estava
em suas mãos e ela repassou pra mim.
Não é assim, eu sei, a minha vó tinha a colcha
dela e eu tinha a minha. Mas esta é a sensação. Ela me repassou algo que ficou
pra sempre.


Hoje o dia está tristinho aqui. Não tem sol de
verdade, tem só uma nuvem grande que cobre tudo. Ontem choveu. A temperatura
está amena. E dias assim deixam a gente levemente sensíveis. Parei pra pensar na
vida que se leva. Nas pessoas ruins, que não aproveitam o presente divino que é
a vida que tem. Elas que pararam suas colchas no meio do caminho antes mesmo do
tempo dizer: "é hora de parar a colcha, ou pronto, sua colcha está
terminada, você agora pode deixar-se cobrir por ela e descansar um
pouco".  Penso nas pessoas que morreram antes do coração realmente
parar. Minha mãe dizia: "esse aí morreu e esqueceu de deitar" e é assim que
algumas pessoas sem noção estão vivendo, meio mortas. 

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