Estourando bolinhas
A gente nao tinha assim tantos brinquedos quanto gostaríamos. Os outros amigos, sim. Era difícil nao ter tanto quanto desejávamos, mas de alguma maneira, aquilo nao era assim tao importante pra gente. De alguma maneira, entendíamos a situacao difícil em que vivíamos. Nossa casa também nao tinha nada de especial. A dos amigos sim. A casa da Cristianne era cheia de coisas lindas e bonecas incríveis. O jardim da mae do Macedinho era lindo, parecia um sonho de tao verde e iluminado, tinha até mesmo um carrinho de construcao que era pintado de branco e tinha plantas dentro. E tinha lâmpadas pra noite! E árvores muito bonitas. E tinha grama verdinha, sempre linda e verdejante. Na casa da Arcelina tinha muitas bonecas e na da Giuliana, tinha muitas bicicletas e elas tinham até mesmo escovas de dentes elétricas. Que coisa incrível!!A gente tinha muito pouco! Por isso quando mamae comprava algo pra gente, era uma festa.
Ainda nao estávamos acostumados com coisas novas, e isso só comecou a chegar lá por casa quando eu tinha uns 11 anos mais ou menos, que foi também quando eu conheci o chocolate! Lembro que ganhávamos melissinhas e o cheiro de borracha era maravilhoso!! E muitas calcinhas... éramos muitas meninas e mamae tinha que se virar pra comprar roupas pra tanta menina. Mas mamae nunca comprava camisolas ou babydolls, porque esses vovó costurava com muito prazer. Quando mamae comprava xampus, eu ficava tao alegre que os jogava pro alto, comemorando nossa "súbita riqueza", até que um dia um deles caiu e quebrou, ficou tudo derramado no chao e minha mae quase me bateu quando soube que eu caí no banheiro por que o xampu fez tudo ficar liso... tinha dias que mamae comprava um móvel e nossa casa se enchia de coisas sensacionais: jogo de sofá de veludo, um luxo!!! Um barzinho de madeira com rodas grandes, cheio de bebidas que ninguém tomava; copo de cristal que a gente adorava ficar brincando: aaahh agora a gente tá mesmo rico! Camas e beliches; tapetes, quadros, estantes... mas de tudo isso, o que eu mais adorava era a embalagem que cobria as novas compras: aqueles sacos plásticos de bolinhas cheias de ar. Meu Deus, como eu gostava daquilo! Na verdade, nao só eu, todos os meus irmaos também amavam estourar as bolinhas e era uma briga nessa hora. A gente ficava ali horas apertando uma por uma, as bolinhas, fazendo um barulho danado e quando ia um por um saindo daquela brincadeira, eu ficava com as últimas bolinhas, e quando nao conseguia mais nada, girava o saco já todo molenga nas maos, apertando com bastante forca, e sempre havia algumas bolinhas com ar pra serem estouradas.
Aquele era o maior símbolo de que a situacao financeira da família estava melhorando e até hoje eu adoro estourar essas bolinhas. Hoje mesmo estourei um saquinho inteiro! A compra foi me dada de aniversário e eu, pra ser muito sincera, gostei mais das bolinhas. Sao de um plástico muito macio, como ainda nao conhecia, e as bolinhas estouram muito facilmente, quase lentamente e o barulho é maravilhoso, igualzinho como quando eu era menina. Meu bebê estourou algumas e ficou muito feliz e encantado com a descoberta. Meus filhos, quando ganham algo, logo me chamam pra estourar as bolinhas com eles.
Observando o bebezinho hoje, pensei que bem lá no fundo, as coisas mais simples sao de fato, as mais belas, sao essas coisas que importam e sao elas que ficam guardadas na gente, estourando como bolinhas de ar na nossa memória...
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