Nao havia domingo sem missa, nem domingo sem
roupa de domingo. Já éramos acordadas com minha mae ouvindo música e recebendo
as tias e a vovó pra juntas prepararem o almoco de domingo. No fim da tarde,
tinha a ida obrigatória a missa, ou mesmo de manha. Cedo ainda. A roupa era
sempre algo novo, e igual. As três se vestiam iguaizinhas. Mudava só um detalhe
aqui, um detalhe ali. E tinha a irma mais velha que sempre queria estar
diferente, mas contra essa rebeldia mamae nao fazia nada, dava
apenas uma pequena abertura pra minha irma se libertar da ditadura das roupas
iguais: uma cor, uma flor, um botao podia mudar, mas nao mais que
isso.
E íamos a missa aos domingos. Arrumadinhas.
Cabelos penteadinhos. Tomadas banho. Cheirando a água de colônia. Ia minha mae,
os cinco filhos e algumas vezes, as primas, a vó, as tias, todo mundo pra missa,
ouvir o padre de fala engracada, com sotaque estranho que a gente mal entendia.
Ele era grande, alto, muito magro, louro, de olho azul, meio velho. O
padre Roberto. Italiano. Nos domingos depois da missa, dizia o povo que ele ia
tomar cerveja no boteco, e diz-que tinha filhos com as caboquinhas da regiao.
Nunca me provaram nada. E eu nao estava interessada na vida secreta do padre que
falava estranho, tava era querendo saber de onde ele trazia as bonecas Susi pra
uma, diz-que, sobrinha dele. Ela dizia que a boneca vinha da Itália e essa
boneca linda e magra e peituda, usava roupas sensacionais pra nós, indiazinhas
criadas e crescidas usando roupinhas simples, feitas pelas velhas máquinas de
costura da vovó e das tias. Roupinhas de xita, de algodao leve, quase sempre
florido e colorido, de elástico e babadinho... sonhávamos com o dia que
usaríamos as roupas chiques da Susi estrangeira da nossa amiga, que brincava de
boneca com a gente, debaixo das casas de pernas longas da nossa rua.
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