por Beto
Pacheco
Coalhada - Chico
AnysioPois há controvérsias e vou
dizer os porquês. Comecei a pensar nisso um dia desses, quando fui convidado a
jogar uma partida de futebol em “grama sintética”. Dá para imaginar eu
fazendo as aspas com os dedinhos, né? Façam-me o favor, futebol não é coisa
sintética, meu amigo. Tem que ter grama. Nunca ouviu aquela máxima “O jogador
comeu a grama”? Como é que aquele atleta que é pura raça vai comer a grama desse
jeito? Ainda mais carregada de farelo de borracha. Indigestão na
certa.
Daí você chega à arena onde será
travado o duelo. Tênis novo, meia posta, calção combinando com a camisa,
barriguinha de chope... O protótipo do atleta de final de semana. Pior: você não
é o único que se enquadra nas especificações. Tu olhas para a equipe e pensa: a
bola vai ter que correr, porque o time...
Então se encaminha para a
quadra. Claro que o infeliz que reservou não marcou o jogo para uma daquelas
cobertas. É, agora tem quadra coberta também. O que acho um absurdo. Sou
tradicionalista nesse ponto: futebol tem que ser a céu aberto. O sol, a chuva?
Não importa, temos que nos adaptar às intempéries climáticas.
Retomando, você se encaminha à
quadra. Distância: aproximadamente 100 metros. Sol a pino. Quando você chega à
beira do campo já quer voltar embora. A língua está que é uma
gravata.
Mas coragem, é hora de escolher
os times. Primeira vez que a turma se reúne, portanto, ninguém conhece as
habilidades alheias. Vai-se por uma análise clínica, a qual chamamos
“olhômetro”, da capacidade pulmonar de cada um. O negócio é aparentar
resistência, amigo. Só assim tu és escolhido. Tirados os times, você olha e
pensa: “Vai ser goleada”. Pra eles.
Pelo menos na sua equipe ficou
um cara que demonstra ser um bom zagueiro. Tipo físico avantajado - para os
lados, inclusive. Cara de mal, meia arregaçada, nem caneleira usa. Do tipo: “Não
tenho medo de dividida, meu irmão!” Dá uma segurança, sabe? Mas, com o
desenrolar da peleja, você vê que estava enganado. O desgraçado é uma ferida e
ainda se acha no direito de cobrar do ataque: “Quer dizer que, além de não fazer
gol, não volta pra marcar, rapazinho?”. Que "rapazinho" o quê?!, dá vontade de
falar, com o dedo em riste. Eu sei, mas não fale. Sua vida é mais importante do
que uma partida de futebol sintético.
Rola a bola. No primeiro pique
já dá para ver que você não aguentará mais do que 10 minutos. “Mas o jogo nem
começou e você já está dizendo que não aguenta?” Não precisa dizer, é visível.
Contudo, não tema. Use as desculpas tradicionais. “Olha, não jogo há um ano e
meio” ou “É que eu tive uma contusão, sabe?”. Não fique sem explicação, pois,
caso contrário, será cobrado ao final da partida na mesa do boteco.
Outra coisa, conselho de amigo,
não se abata. Olhe à sua volta e verá que você não é tão ruim assim. Tem coisa
pior. Canelada é padrão nesse tipo de evento esportivo. Se é que podemos chamar
o que se vê em quadra de esporte. A torcida que o diga. Coitada das esposas e
namoradas obrigadas a acompanhar o “benzinho” em ação. Pior que o danado ainda
prometeu fazer um gol para ela. Mulher sofre, eu sei
E quando você vai bater o
escanteio, então? Há sempre aquele que fica acenando, como um desesperado, para
receber a bola. "Aqui, aqui!" Sem falar que o desgraçado tenta chamar a sua
atenção sem que o adversário perceba... Como se fosse possível. Tem que avisar o
gajo que ele não é invisível. Mas não esquenta, provavelmente você vá chutar o
chão e a bola nem chegará ao destino mesmo.
Com relação ao “fominha”, vá
preparado. Vai encontrá-lo, invariavelmente. Normalmente é um senhor que, quando
jovem, se dizia craque. Desista, ele não vai tocar a bola nem por decreto. E,
sempre, ao perder o gol, ou roubarem dele a bola, vai se sair com essa: “Foi
mal, foi mal, não te vi”. "Não te vi” uma ova! Sendo assim, melhor ficar mais na
zaga, marcando.
Dica: já que é para marcar,
escolha alguém que esteja mais esbaforido do que você. Alguém que fique parado,
só meditando o futebol. Daí vai ser sopa. É capaz de ainda acharem que você joga
muito. “Cara, como você marca. Implacável!” Mas, quando encontrar tal presa,
avise em alto e bom tom, “Eu marco o fulano”, que é pra ninguém mais se meter à
besta.
Agora, se por acaso, sabe-se lá
como, conseguir, por um momento que seja, chegar em condições de fazer o gol,
cuidado. A probabilidade de furada é iminente. Já imaginou a bola vindo,
açucarada, você e o goleiro, e, mesmo assim, errar o chute? Lamentável. Neste
caso, caia. Finja contusão. Fica menos feio. De preferência, se achar viável, o
faça antes de chegar a tal situação.
Certo, pode ser que eu esteja
exagerando. Não é possível que ninguém ali, nenhum dos que estão jogando, nem
dos que estão “de próxima” (imagine as cãibras no dia seguinte se não houvesse
próxima), tenha um mínimo de habilidade. Certamente há um craque escondido em
campo. A técnica, por mais insípida, inodora e incolor que possa ter se mostrado
deve estar presente em alguém. O problema é que o cérebro manda a ordem,
“Faça!”, e a informação demora a chegar às pernas. Só isso. Não, a distância que
a informação percorre não é tão longa, é uma questão de falta de preparo mesmo.
E, quando a ordem chega ao seu destino, ainda vem a resposta: “Verei o que dá
pra fazer”.
Finalmente o jogo acaba.
Extenuado, você olha em volta procurando água. A boca parece o Deserto de
Atacama, meu caro. O pé está que é só bolha. E você se pergunta: “Por que
tamanho sofrimento?”. “Por que me submeto à terrível tortura?”. Simples, porque
você mora no país do futebol. Está dentro de você, não há como fugir.
No mais, tem sempre um bar ao
lado para apaziguar cenas tão deploráveis. “Jardel, desce duas!”
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