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  on /search 02 Jul
por Beto Pacheco 
Esse tal de tempo começa a me assustar. Confesso que eu não dava muita bola para ele, mas de uns tempos (ah, o tempo!) para cá, a coisa vem mudando de figura. Ele está cada vez mais rápido, isso é fato. Lembro que antigamente (já falo “antigamente” faz algum tempo) o ano demorava a passar, o Natal – e seus brinquedinhos debaixo da árvore – demorava a chegar, o ano letivo teimava em não terminar e meus aniversários eram contados nos dedos da mão (agora, haja mãos).
Não faz muito tempo, coisa de um século (o que em se tratando do tempo do mundo é pouca coisa), tudo era mais lento. As notícias só chegavam de manhãzinha, com o litro de leite e o cantar do galo; as conversas eram prosas e não chats; os recados eram cartas e não posts e as cantadas levavam dias e não segundos. Não que eu ache isso legal, pois imagino a ansiedade que tanta enrolação causava. Contudo, as coisas tinham um quê mais poético, por assim dizer. Vou dar um exemplo prático.
O Nelson Motta, em seu livro “A Primavera do Dragão – a juventude de Glauber Rocha”, comenta que assim se desenrolava o flerte nos idos de 1950:
Um mês para convidar para sair.Mais um mês para pegar na mão.Mais um mês para dar um selinho.Mais três meses para tocar nos seios (sobre a blusa).E uma eternidade para tocar nos seios nus, com o risco de orgasmo súbito no momento do ato.
Hoje em dia, está tudo mudado. Aliás, mudado até demais. Vou relatar para vocês um acontecimento que me deixou um tanto quanto confuso.
Eu estava na praia, na casa de uma tia, durante o Réveillon e percebi que na rua em frente um verdadeiro enxame de crianças se proliferava. Há anos passo verões na casa dessa tia, mas fazia muito tempo que não via tanta molecada junta – o tempo passa! Pois bem, uns cinco moleques (do capeta) daqueles ficaram dias seguidos soltando bombinha – das bem barulhentas – em frente à casa. Era rojão de 10 em 10 minutos. Você estava tomando café e bum! Lavando a louça e bum! Voltando da praia (debaixo de garoa) e bum! Lendo um livro na rede (por causa da garoa) e bum! E foi assim dias a fio. Lá pelo terceiro dia, minhas tias já estavam malucas e queriam por que queriam ir lá, pegar as bombinhas e enfiar bem no meio do pensamento deles (o que deve doer, convenhamos).
Bom, eu disse a elas que de nada ia adiantar esse embate, que eles responderiam de maneira mal-educada (porque assim são as crianças... pelos menos os machos da espécie) e que isso só serviria para aumentar o estresse. Mas de nada minha ladainha adiantou. Uma de minhas tias, num afã de resolver o problema (dela, pois os moleques estavam se divertindo), abriu a porta e partiu para a rua. Seria uma guerra, previ. Ela com seu palavreado em defesa da moral e dos bons decibéis, eles com seus traques, rojões e desaforos infantis. Fiquei só de olho.
Porém, nada de soar brado, corneta ou canhão. Aliás, pelo menos de longe, a conversa parecia calma demais. Não entendi nada. Parecia que os meninos mais se explicavam do que minha tia esbravejava. Na realidade, ela só ouvia, calmamente. De repente, ela passou a mão na cabeça de um deles, girou nos calcanhares e rumou para dentro de casa com uma cara de dó que causava preocupação.
– Sabem por que eles estão soltando traque sem parar? – Perguntou-nos minha tia, em tom de anúncio iminente.– Por quê? – Retrucamos todos.– Porque eles estão flertando com as meninas da casa da frente.
Muito bem, o que dizer, não é mesmo? Na hora, fiquei embasbacado (sempre quis usar essa palavra e nunca havia achado o momento oportuno). Deixa ver se entendi direito: os meninos, por volta de seus 10, 11 ou 12 anos, estavam tentando “flertar” com as meninas da casa da frente soltando seguidamente, dia após dia, bombinhas na rua...
E tem gente que ainda acha que Michel Teló é inofensivo“Nossa, nossa, assim você me mata...” BUM!

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