Terceirizando anjos da guarda
por Beto Pacheco
Continuando
a série “a estupidez humana não tem fim”, deparei-me com uma placa dia desses
que me deixou perplexo. Ela dizia o seguinte:
Não amarre o seu amor
Traga-o com a ajuda do Anjo da
Guarda
Pagamento após o resultado
Garçom, desce
um Dreher. Na boa, não sei se fiquei
mais estupefato com o fato de perceber a crescente competitividade entre as
crenças – os pais e mães de santo Brasil afora que abram os olhos; se com a
incorporação do marketing no mundo espiritual – afinal, pagamento após o
resultado é uma baita jogada de marketing; ou com o fato do trabalho, por assim
dizer, ser feito em parceria com o Anjo da Guarda.
Senão,
vejamos, até onde sei, pois não sou muito versado nas artes transcendentais, cada
pessoa tem o seu próprio anjo da guarda. Muito bem, diria o Napoleão Bonaparte
da propaganda. Portanto, façamos um exercício de reflexão, o prestador do
serviço teria de falar com o dito anjo para que ele intervisse em favor da
contratante. Muito bom, diria então o Nero da propaganda. Aí, o prestador de
serviço teria de repassar parte do valor combinado ao anjo da sofredora,
contudo, teria de convencê-lo a aceitar o pagamento somente após o resultado –
a não ser que o prestador tenha um capital de giro e tal – e tudo isso teria de
ser feito de modo que o anjo da guarda do ser amado, que não tem nada a ver com
a peteca, não resolvesse melar o negócio.
– Aí, ô das
asinhas, preciso que o teu protegido volte para a humana que eu tomo conta.
– Negativo.
Eu que não vou deixar ele voltar praquela bruxa.
– Mas ela só
vai pagar pelo serviço se o gajo voltar pra ela... e sem amarração.
– Ah, ela
vai pagar, é? Bom, posso até pensar no caso, mas vai pingar quanto no meu bolso?
Avaliando
melhor, até que pode ser um belo negócio. Mas estou aqui pensando num método
mais lucrativo. Assim, a pessoa dá a letra de quem é o alvo da macumba... digo,
do serviço, faz o contrato e só paga quando o resultado for positivo. Aí, em
vez de falar com o Anjo da Guarda, o interlocutor/astrólogo-sensitivo vai ao
ser amado, alvo do trabalho, e trata direto com ele. Isso economizaria, além da
taxa do anjo, mais uma pá de taxinhas e propinas – além de impostos – que teriam
de ser pagos pelo caminho. Então, acorda-se com o dito alvo uma volta
temporária para a moça. O rapaz volta para a contratante, ela paga o combinado ao
prestador de serviço/misifio , já que o resultado foi atingido. Ele repassa
parte do dinheiro ao próprio objeto do trabalho, ou seja, o amor-da-vida da
contratante, que, com o din-din no bolso, decide se continua ou se pica a mula
novamente.
E tem mais,
caso ele pique a mula novamente, deixando-a solteira à própria sorte, joga-se a
culpa no anjo da guarda, ou no Exu, ou no Curupira, tanto faz, faz-se um novo
contrato com a sofredora e dê-lhe aumentar a arrecadação. Afinal, o mundo é
feito de oportunidades, não é mesmo?
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