Certa vez, no Jornal da Globo, deparei-me com a seguinte expressão, dita
pelo Sr. Desculpe-a-Nossa-Falha, Willian Waack: “Foi preso, hoje, um falso
vidente”. Gooooood Morning, Vietnã! Não diga?! Sério que pegaram um “falso
vidente”?! Ah, pode parar, não, não, e não, assim não dá, e como ficam os
verdadeiros videntes? Aqueles sinceros e honestos videntes que nos guiam, nos
alertam do que há porvir, nos informam que caminho tomar facilitando tanto as
nossas vidas. E o sindicato dos “verdadeiros videntes”, onde se encontra nessas
horas? E Mãe Dinah? E Pai Alex? Não protestarão veementemente? “Vamos
passar a sacolinhaaa”, como dizia o grande Tim Tones – aquele que era o oásis no
deserto do amor (lembram dele?). O safado, salafrário, vigarista, enganador,
desonesto, embusteiro, golpista, ladrão, tapeador, trapaceiro do “falso vidente”
ainda se dizia cartomante e jogava búzios. Ou seja, se vestia ora de cigano, ora
de pai de santo. Como diz um amigo meu, "Se fingindo de porco vesgo pra comer em
dois cochos". Olha, não quero entrar em méritos religiosos e culturais aqui, por
favor, estamos analisando somente e tão somente um tremendo trambiqueiro com uma
cara-de-pau tal que se dizia entendido tanto nos mistérios dos nômades
d’além-mar, como nas crenças africanas. Quase um multimídia. Tem mais,
escuta essa, o maledicente previu uma morte na família de uma senhorinha e disse
que apenas se ela levasse R$ 13.000 (eu disse TREZE MIL!) até ele a coitada
estaria livre. O carcará sanguinolento prometia benzer – ah é, ele era
“benzedeiro” também – a quantia para que tudo se acabasse e o mal se desfizesse.
Pior: ela acreditou! Me tira o tubo, me tira o tuuuuuubo! E para piorar ainda
mais, a dona não conseguiu os treze mil dinheiros, apenas cinco mil. Julgando
não ter outra opção, ela foi ao encontro do Dick Vigarista torcendo para que,
com essa quantia, o filho-dum-que-ronca-e-fuça lhe livrasse da foice e lhe
infligisse apenas um acidente leve; uma perna quebrada, quiçá uma indisposição
passageira; ou uma incômoda, mas sobrevivente, caganeira. Quiçá! Lá foi
ela entregar o dim-dim para o vidente, que embalou o tutu devidamente benzido e
entregou o pacote à dona com uma instrução muito séria: “guarde em casa e jamais
abra, pois se fizer isto a morte voltará”. A senhorinha foi-se embora, decidida
a se livrar da praga, mas achou melhor, e mais seguro (com toda certeza),
guardar os trocados no banco. Tchan-tchan-tchan-tchan, e o que aconteceu, e o
que aconteceu? A caixa do banco abriu o pacote e veio com a terrível notícia:
“Minha senhora, aqui não tem dinheiro, só papel”. E a lograda: “Meu Deus, eu vou
morrer!” Não, claro que não, no máximo uma diarréia. Povo de Tubiacanga, até o
mais mané ia se tocar depois dessa, não é mesmo? Então, o que fazer?
Pois ela não precisou fazer nada. Além de “falso vidente” – sim, porque
os verdadeiros videntes cobram muito mais caro – o condenado era ganancioso e
ligou marcando data, local e hora para que a dona lhe passasse os oito mil que
estavam faltando. Parece aquele trote do “Segura aqui que eu vou amarrar o
tênis”, que você, por mais que já tenha caído, sempre segura de novo. Porém, a
dona mostrou que dessa vez já estava escolada. Combinou tudo com o Irmão
Metralha, que foi direto para o ponto marcado. Chegando lá, quem o estava
esperando? Quem? Quem? Pê-u-éle-i-cecidrilha-a... PULIÇA! (gente, por favor,
cedilha não se escreve daquela forma ali não, foi só uma licença poética. Já,
puliça...). Eis aqui, então, algo que acho chato: um final feliz. O
bandidão foi preso; a mocinha, melhor, a velhinha, resgatou seus ricos
trocadinhos; as “otoridades” pegaram o meliante; a imprensa teve sua manchete; e
o cronista, que se analisarmos bem não deixa de ser um falso cronista, ganhou
uma historinha para contar. Aliás, acabei de ter uma visão e se vocês não me
mandarem R$13.000 até amanhã continuarão a aguentar meus textos diariamente. Um
destino terrível, sejamos sinceros.
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