A boa mãe é aquela que vai se tornando desnecessária
com o passar do tempo. Várias vezes ouvi de um amigo psicanalista essa frase e
ela sempre me soou estranha. Até agora. Agora que minha filha adolescente, aos
quase 18 anos, começa a dar vôos-solo. Chegou a hora de reprimir de vez o
impulso natural materno de querer colocar a cria embaixo da asa, protegida de
todos os erros, tristezas e perigos. Uma batalha interna hercúlea,
confesso. Quando começo a esmorecer na luta para controlar a
super-mãe que todas temos dentro de nós, lembro logo da frase, hoje
absolutamente clara. Se eu fiz o meu trabalho direito, tenho que me tornar
desnecessária.
Antes que alguma mãe apressada venha me acusar de
desamor, preciso explicar o que significa isso. Ser “desnecessária” é não deixar
que o amor incondicional de mãe, que sempre existirá, provoque vício e
dependência nos filhos, como uma droga, a ponto de eles não conseguirem ser
autônomos, confiantes e independentes. Prontos para traçar seu rumo, fazer suas
escolhas, superar suas frustrações e cometer os próprios erros
também.
A cada fase da vida, vamos cortando e refazendo o
cordão umbilical, como bem resumi a psicóloga e educadora Ligia Arantangy (...).
A cada nova fase, uma nova perda e um novo ganho, para os dois lados, mãe e
filho. Porque o amor é um processo de libertação permanente e esse vínculo não
pára de se transformar ao longo da vida.
Até o dia em
que os filhos se tornam adultos, constituem a própria família e recomeçam o
ciclo. O que eles precisam é ter certeza de que estamos lá, firmes, na
concordância ou na divergência, no sucesso ou no fracasso, com o peito aberto
para o aconchego, o abraço apertado, o conforto nas horas
difíceis.
Pai e mãe – solidários – criam
filhos para serem livres. Esse é o maior desafio e a principal missão. Ao
aprendermos a ser “desnecessários”, nos transformamos em porto seguro para
quando eles decidirem atracar.(Marcia Neder / Revista
Claudia)
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