quinta-feira, 23 de junho de 2011
Lula
institucionalizou a impunidade dos corruptos e acelerou a decomposição moral do
país.
Augusto
Nunes
Herança maldita
é a institucionalização da impunidade dos bandidos de estimação
Se conseguisse
envergonhar-se com alguma coisa, o ex-presidente Lula estaria pedindo perdão aos
brasileiros em geral, por ter imposto a Dilma Rousseff a nomeação de Antonio
Palocci, e aos paulistas em particular, por ter imposto ao PT a candidatura de
Aloízio Mercadante ao governo estadual. Se não achasse que ética é coisa de
otário, trataria de concentrar-se nas palestras encomendadas por empreiteiros
amigos para livrar-se de explicar o inexplicável, como o milagre da
multiplicação do patrimônio de Palocci e a comprovação do envolvimento de
Mercadante nas bandalheiras dos aloprados. Se não fosse portador da síndrome de
Deus, saberia que ninguém tem poderes para revogar os fatos e decretar a
inexistência do escândalo do mensalão.
Como Lula é o que é,
aproveitou a reunião do PT paulista, neste 17 de junho, para tratar de todos
esses temas no mesmo palavrório. Com o desembaraço dos condenados à impunidade
perpétua e o cinismo de quem não tem compromisso com a verdade, o sumo-sacerdote
da seita serviu a salada mista no Sermão aos Companheiros Pecadores, clímax da
missa negra em Sumaré. Sem união, ensinou o mestre a seus discípulos, nenhum
bando sobrevive sem perdas. Palocci, nessa linha de raciocínio, perdeu o
empregão na Casa Civil não pelo que fez, mas pelo que o rebanho governista
deixou de fazer. Foi despejado não por excesso de culpa, mas por falta de braços
solidários.
Para demonstrar a tese,
evocou o escândalo do mensalão, sem mencionar a expressão proibida. “Eu sei, o
Zé Dirceu sabe, o João Paulo sabe, o Ricardo Berzoini sabe, que um dos nossos
problemas em 2005 era a desconfiança entre nós, dentro da nossa bancada”, disse
o mestre a seus discípulos. “A crise de 2005 começou com uma acusação no
Correio, de R$ 3 mil, o cara envolvido era do PTB, quem presidia o Correio era o
PMDB e eles transformaram a CPI dos Correios, para apurar isso, numa CPI contra
o PT, contra o Zé Dirceu e contra outros companheiros. Por quê? Porque a gente
tava desunido”.
A sinopse esperta exige o
preenchimento dos muitos buracos com informações essenciais. Foi Lula quem
entregou o controle dos Correios ao condomínio formado pelo PMDB e pelo PTB. O
funcionário filmado embolsando propinas era apadrinhado pelo deputado Roberto
Jefferson, presidente do PTB, que merecera do amigo Lula “um cheque em branco”.
O desconfiado da história foi Jefferson, que resolveu afundar atirando ao
descobrir que o Planalto não o livraria do naufrágio. Ao contar o que sabia,
desmatou a trilha que levaria ao pântano do mensalão. Ali chapinhava José
Dirceu, chefe do que o procurador-geral da República qualificou de “organização
criminosa sofisticada” formada por dezenas de meliantes.
Tais erros não podem
repetir-se, advertiu o pregador. É preciso preservar a coesão do PT e da base
alugada, contemplando com cuidados especiais os parceiros do PMDB. Para abafar
focos de descontentamento, a receita é singela: “A gente se reúne, tranca a
porta e se atraca lá dentro”, prescreveu. Encerrada a briga de foice, unifica-se
o discurso em favor dos delinquentes em perigo.
“Eu tô de saco cheio de ver
companheiro acusado, humilhado, e depois não se provar nada”, caprichou na
indignação de araque o padroeiro dos gatunos federais. Aos olhos dos brasileiros
honestos, figuras como o mensaleiro José Dirceu, a quadrilheira Erenice Guerra
ou o estuprador de sigilo bancário Antonio Palocci têm de prestar contas à
Justiça. Para Lula, todos só prestaram relevantes serviços à pátria. A lealdade
ao chefe purifica.
“Os adversários não brincam
em serviço”, fantasiou. “Toda vez que o PT se fortalece, eles saem achincalhando
o partido”. É por isso que Mercadante está na berlinda: segundo Lula, os
inimigos miram não no comandante de milícias alopradas, mas no futuro prefeito
da capital. “Nunca antes na história deste país tivemos condições tão favoráveis
para ganhar as eleições no Estado”, festejou no fim do sermão.
Se há pouco mais de seis
meses o PT foi novamente surrado nas urnas paulistas, o que ampara o otimismo do
palanque ambulante? Nada. É só mais um blefe. O PSDB costuma embarcar em todos.
Não conseguiu sequer deixar claro que o Brasil Maravilha esculpido em milhares
de falatórios só existe na imaginação dos arquitetos malandros e na papelada
registrada em cartório.
Cumpre à oposição mostrar
que o homem que brinca de xerife é o vilão do faroeste de quinta categoria. Os
brasileiros precisam aprender que o câncer que corrói o organismo político
nacional não é a corrupção simplesmente ─ essa existe em qualquer paragem. É a
certeza de que não haverá sanções legais. Ao longo de oito anos, enquanto
cuidava de promover a ignorância à categoria das virtudes, Lula
institucionalizou a impunidade dos corruptos e acelerou a decomposição moral do
país.
O Brasil deste começo de
século lembra um grande clube dos cafajestes sustentado por milhões de eleitores
para os quais a vida consiste em não morrer de fome. Essa sim é a herança
maldita.
Título e Texto: Augusto Nunes,
22-06-2011
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