Zumbi subject 117A
Postado por Camila Mateus em segunda-feira, junho 25, 2012 · Leave a Comment
117 semanas se passaram e já não é de hoje que notamos um comportamento estranho nos zumbis. Corremos riscos mas fizemos estudos de campo além de várias capturas durante os últimos 3 meses em busca de cobaias. Aparentemente, e por mais incrível que possa parecer, alguns se mostravam mais agressivos que o normal, outros pareciam que tentavam falar. Mas todos morriam dias depois, deixavam de apresentar atividade cerebral, como se tivesse levado um tiro certeiro na cabeça. Por semanas tentamos entender a causa, era como se estivessem tentando fazer alguma coisa e algo saiu errado. De qualquer forma guardamos os corpos.
Mas, entre tantas cobaias uma nos chamou atenção de início. A subject 117A, que resistiu aos tratamentos e tem mostrado certa excitação e entusiasmo quando me vê. Ela não devia ter mais de 30 anos, seu corpo ainda mostra jovialidade, e o rosto, apesar de ter a face esquerda desfigurada percebe-se que era apenas uma moça. Seus olhos se tornam mais vivos a cada dia, mudando a coloração de volta ao normal, e perdendo aquela aparência vazia. Alguns outros zumbis passaram por isso, mas logo no inicio morreram, ela não. Temos tudo documentado, só mesmo assistindo aos videos e observando as fotos para acreditar. Embora ela não responda a nenhum outro estímulo por enquanto, algo em seus olhos demonstra o contrário do que deveria ser um zumbi.
A subject 117A é realmente diferente. Por isso resolvemos tentar explorar seu psicológico e ver se é possível que ela demonstre ter consciência de alguma coisa.
Cheguei bem cedo, hoje é o primeiro dia dos testes psicológicos, tentarei me comunicar com ela, e estou muito ansiosa. Peguei meu café e entrei na sala blindada. 117A estava presa com grossas argolas de metal que vinham do chão e da parede a suas costas. Concordamos que ela não tomaria nenhum sedativo. Sentei a sua frente aproximando a cadeira da mesa, levei uma pasta com algumas fotos e fui aos poucos mostrando a ela, uma por uma. Eram fotos de crianças, famílias, namorados e algumas pinturas. Ela observava cada uma claramente, com muita atenção, e totalmente controlada. Soube que era o momento certo para iniciar um diálogo.
- Você gostou de alguma dessas? Escutei apenas um grunhido.
Puxei junto com a pasta uma pintura que meu filho fez dia desses, era um monstro que mais parecia um demônio. Guardava a pintura justamente para conversar com ele sobre isso, mas resolvi mostrar para a 117A.
De repente um sorriso se formou em seu rosto. Eu estremeci e larguei o desenho por um minuto ajeitando os óculos e tentando me recompor, aquilo foi perturbador. Novamente levanto o desenho e pergunto, tentando parecer o mais calma possível:
- Você gosta? E então acontece o impossível, ela responde:
- Somos uma legião terrena agora. Vocês nos proporcionaram isso. Quem desenhou este? Ele deve nos conhecer bem por debaixo dessa carne podre.
Segurei o ar por mais de um minuto. Meus colegas viram através do espelho da outra sala, tentaram interferir, por medo talvez, mas eu acenei para que me deixassem com ela. Continuava:
- Corpos em decomposição não são exatamente o tipo de coisa que imaginávamos usar, mas graças a vocês isso foi possível e pudemos passar para este plano. E mais virão, muitos mais – fez uma pausa para respirar e engolir a bola de saliva que se formou em sua boca. Mas o sorriso ainda estava lá.
- Isso é só o começo…
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